sábado, 26 de maio de 2012

Santa Cruz


nada se compara. nada se compara a ir para casa. e a casa é onde meus hábitos tem habitat. nada se compara a corações que se afagam. na-da.
nada preenche mais que o calor de um coração no outro. vem do estômago e sai pelo centro do peito esse aperto que não dói. aperto de amor.
é um foco de luz que irradia, o aperto é a sua força de sair. se espremer entre as costelas, um pouco dividido pelo esterno.
sai aos trancos, o amor.
sai por dentro, o amor.
sai pelas narinas, por entre os dedos, escapa, se esvai, se perde, se ganha tanto, tenta em vão se prender no centro da mão, só pelo fato de sentí-lo mais um pouco em seu corpo.
não fica. o amor sai como o ar já gasto precisa sair de mim e tomar conta do ambiente, voar, volar, volar.
e tocar, leve, nas superfícies ao redor. repousar.

domingo, 20 de maio de 2012

como jogar uma taça delicada no chão

o som é doloroso.
o vidro encosta no chão, o atrito, o contato, a força do vidro no chão, a força do chão no vidro. é terrível! quebra os ossos. dói na espinha vê-lo assim, no chão. esse vidro tão resguardado no armário, na vitrine da sala. esse vidro que segurava com panos, com luvas de algodão pra que não, não se despedaçasse, nem fosse riscado. o pano no vidro, o pano era grosso, não via, mas ele estava sendo riscado. dói o atrito do pano na superfície lisa. não era tão lisa mais, segurá-lo tantas vezes o fez menos delicado.
um dia olhei essa taça mais uma vez, rotina limpá-la, lustrá-la com aquele tal pano.
o atrito tinha feito tantos vincos já naquela superfície. o cuidado já magoava. a proteção estilhaça meu peito. a proteção aperta meu coração. meu órgão já não consegue bater de se ver preso por estas mãos. apertado por estes dedos cobertos de pano.
depois dessa dor, jogo. solto no ar um copo de anos. um corpo de anos. solto no ar, ele paira anos em minha mente. de fato, foram segundos. abro as palpebras já não é o mesmo.
partículas por todos os lados, pedaços deste objeto no chão. não vejo mais o que ele era. agora são cacos. tento calcular, tento reformular na minha mente o que eram esses corpos, pequenos corpos. impossível ver. IMPOSSÍVEL. como uma venda no meu olhar, o chão quebrou aquilo e já não me lembrei o que era que estava na minha mão, que mão? o que era aquilo?
vazio no peito,
tento reler para relembrar. quase impossível saber o que era.
só sei dizer até aí. o copo se quebrou, os cacos no chão.
não, acho que lembro o que fiz depois. na verdade estou aqui, juntando-os. tinha me esquecido. lapsos mentais.
me esqueço de novo e de novo, como começar a explicar o que fiz quando comecei a juntar estes corpos que estavam espalhados? 
é preciso muita força para lembrar, mas foi assim:
peguei um por um estes cacos. é, são cacos. não são corpos. agora os considero assim. olhei um por um: são grossos. têm uma largura. pareciam tão finos quando era uma taça. taça fina. agora olho-os de verdade. parece que vejo os vincos do sólido amorfo. as ondas da fluidez que ele possue. e QUE NINGUÉM VÊ. ninguém vê a fluidez do vidro. porque? PORQUEEEEEEEEEEEEEEEEEEE?
QUERO GRITAR PRA QUE VEJAM! HÁ FLUIDEZ NO VIDRO! PORRA! VEJAM.
os cacos fluidos e sólidos ao mesmo tempo em minha mão. não doíam porque os segurava de um jeito confortável. duas mãos postas uma do lado da outra, em concha.
agora jogo-os na mesa. na superfície dura  e segura da mesa. meu espaço rígido onde posso trabalhar com meus pedaços, de taça.
aqui estão vocês.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

meninas-flores

Flores espinhosas, cactus inebriante da sede, da sede de saciar fome, da fome de saciar sede. Do recheio suculento que me falta e que me dás, voraz. Me faz - voraz. Ante o tudo, o que me falta é nada. De nada falta, faltas tu, dentes fortes, cactus pontudos, agudos a me perfurar a pele, a desconjurar os ânimos, a me rasgar por dentro, dilacerar meus seios, romper minhas fibras, me olhar calma, os batimentos, examinar, cálida- e calada- os meus defeituosos ritmos cardíacos: arritmoso tempo. Depois destes atos, flor, tu me beijas o coração, beijas com vontade o órgão vermelho e me tomas inteira, me tomas o todo, encarna os pedaços, desmonta os laços, me deixa perdida, me perde por fim, me caem os cabelos, me fecha a ferida, cicatriz na partida, te dou minha mão.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

passaram tempos de desconhecidos caminhos.
todo dia é desconhecido caminho, mas há dias em que nada se perde, nem o corpo, nem alma.
lembro de mim.
olho meu próprio corpo: ausente há um tempo. olho os traços da minha perna- curiosidade e saudade-, olho pêlos e unhas.
aqui estou eu, aqui está o que é meu, ruim ou bom, é isto que sou, é ist que tento melhorar, é isso que tento crescer. de nada adianta ser outro sem ser um. é hora de re-conhecimento.
o que aprendi fora de mim que pode ser incluso neste ser? o que já está? é preciso retomar os gestos, o olhar, os jeitos.
é bom se perder nesta trilha tanto quanto é bom voltar para casa.

terça-feira, 27 de março de 2012

noite longa

nao temo a ordem do encaixe das silabas mal faladas, nem a pausa da vela esquecida. o tempo e o vento. nao esqueco jamais desta dupla. eles levam e entregam coisas inigualaveis com nada concreto, que se segure, palpavelmente em calculos e estrategias.
descubro o vento na brisa leve dos meus pes.
descubro o tempo quando me acerto de que ele nao existe. nao esta, nem foi. e um fluido corrente. sem acorrentar a alma, como todos erroneamente achamos que ele faz.
trago em mim mudancas do que ja foi, trago forcas que vem sei de la onde, trago joias fincadas em meu peito, quero que brilhem, quero entrega-las.
nao espero mais o conforto da duvida desesperada, espero a mansa certeza.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Rio de Janeiro, BR.

Minha alma é livre. Tem pés firmes, fincados no solo, espinha ereta e braços soltos de abraço.
Minha alma é leve como pena que flutua para todos os cantos, rio que corre manso de barulho suave, mata fresca. Alma-penacho de cocar que ouve e vê com os olhos de rabo de pavão.
Mil olhos verdes atentos ao ser e vir do tempo, da rede das coisas concretas e não. Do ir e voltar das espirais do jogo que não se joga, mas vive.
Sou também pavão vaidoso, que mostra seu cocar com orgulho, porém não tem maldade em seu caminhar.
Sabe o que quer e onde vai chegar, mesmo que o destino e a natureza mude suas idéias e seus ideais, alma sabe, alma segue o fluxo correto da terra e do ar. Alma vibra como fogo, chama acesa e perene: para todo o sempre.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

perpasso por entendimento

construo-me envolta aos mistérios da terra.
não sei de mim nem do outro. mas convivo cruzando os dois.
a felicidade é conquista diária, conquista da mente.
não sou o que era, e aceito a vinda de outros eus, não nado pra manter estática.
a passagem dos dias, a maré dos destinos, a descoberta dos amantes, a lógica instintiva da vida.